segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

As religiões do Antigo Testamento

 Autoridade mundial na matéria, Francolino Gonçalves, português na Comissão Bíblica Pontifícia, apresenta o seu percurso


O dominicano português Francolino Gonçalves, investigador da Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém, é um dos mais recentes membros da Comissão Bíblica Pontifícia. Nascido em 1943, faz de Jerusalém a sua casa e os seus principais centros de interesse são a dimensão política do profetismo no Oriente Antigo e a história da formação dos livros proféticos da Bíblia, em especial Isaías e Jeremias.

Agência ECCLESIA (AE) – Recentemente, foi nomeado para a Comissão Bíblica Pontifícia. É o reconhecimento do seu trabalho nesta área?

Francolino Gonçalves (FG) – Não esperava e fiquei surpreendido. Sei que esta comissão tem 20 elementos e que existe desde 30 de Outubro de 1902. Surgiu no final do Pontificado de Leão XIII e tinha como função primitiva a promoção do estudo científico da Bíblia. No contexto de então, este era sinónimo de estudo histórico-crítico. Por outro lado, tinha também a função de defender a ortodoxia católica do estudo da Bíblia.

Um ano após a criação desta comissão, em 1903, começa o Pontificado de Pio X e «estala» a crise modernista. A Comissão Bíblica tornou-se só defensora da ortodoxia.

AE – Esqueceu-se da promoção do estudo científico da Bíblia?

FG – A crise modernista era grave e, muitos, viam-na como um perigo para a sobrevivência da fé cristã. Em todo o Pontificado de Pio X, a Comissão foi um órgão de censura. Recordo-me de algumas respostas que foram dadas pela Comissão. Em relação à autoria do Pentateuco (cinco primeiros livros da Bíblia) afirmaram: «Não se pode negar que Moisés tenha sido o autor de todo o Pentateuco». Sobre o Livro de Isaías, a Comissão dizia que “não se pode negar que este livro tenha sido escrito na sua totalidade por Isaías”.

AE – Quando se alterou esta situação?

FG – Mudou, radicalmente, após o II Concílio do Vaticano. Actualmente, pelo que sei de fora, a Comissão tornou-se uma espécie de academia que se dedica a estudos de fundo com grandes preocupações metodológicas. Já publicou vários trabalhos desse tipo. Um dos mais importantes foi «A Interpretação da Bíblia na Igreja». Nesta obra faz-se uma espécie de elenco de todos os métodos utilizados na leitura da Bíblia. Na década de 70 do século passado assistimos a uma proliferação dos métodos e abordagens.

AE – Essa é uma obra de referência, mas a Comissão Bíblica tem outros estudos?

FG – Sim. «O Povo Judeu e as suas santas Escrituras na Bíblia cristã» publicado em 2004. Passados quatro anos (2008) saiu «Bíblia e Moral, as raízes bíblicas do agir cristão». O novo projecto será sobre a «Inspiração e verdade da Bíblia»

AE – Este projecto já contará com a sua colaboração?

FG – É verdade. Na próxima assembleia plenária da Comissão, a realizar de 20 a 24 de Abril, no Vaticano, iremos lançar e repartir o trabalho. Depois partimos para a investigação.

AE – É professor na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. Como é o seu «modus vivendi» naquela cidade?

FG – Vivo lá enclaustrado. A minha vida é: quarto e biblioteca. Praticamente, não necessito de sair. Outrora saía mais, quando estava ocupado com as viagens arqueológicas da escola. No entanto sei que, do ponto de vista da segurança física, não há problema nenhum. Fisicamente, nunca tive medo, mas sente-se tensão.

Uma vida de estudo

AE – Consideram-no o maior perito mundial sobre o Profeta Isaías. Reconhece-se nesse lugar?

FG – Eu não diria. Há muita gente a estudar Isaías e cada um estuda-o do seu ponto de vista. Penso que não se pode dizer que há o maior perito no livro de Isaías. Não há rankings. Cada um tem a sua experiência e abordagem do livro.

AE – Como descobriu este fascínio pela Bíblia, pela investigação do Livro dos livros?

FG – Em parte, deve-se às influências que se têm durante o estudo. Recordo-me que tive – em Portugal – um professor extraordinário, frei Raimundo de Oliveira. Tinha uma capacidade de comunicação absolutamente excepcional. Sabia muito, mas sabia ensinar ainda melhor.

AE – Era um grande pedagogo...

FG – Tinha paixão naquilo que fazia. Esse entusiasmo era contagioso. Penso que lhe devo, em parte, este interesse pela Bíblia. Tudo isto aconteceu nos primeiros anos de Teologia, em Fátima, no início da década de sessenta. Depois, manifestei o desejo de aprofundar estas áreas.

AE – Onde estudou?

FG – Primeiro em Portugal, depois estive três anos no Canadá (Otawa). Para a especialização tinha duas hipóteses: Instituto Bíblico de Roma ou a Escola Bíblica e Arqueológica Francesa em Jerusalém. Optei por Jerusalém. Na Ordem dos Dominicanos era costume irmos estudar para lá onde passávamos, pelo menos, dois anos. Durante este período preparávamos títulos próprios da escola e os títulos para a Comissão Bíblica Pontifícia. Segui o itinerário que era habitual dentro dos Dominicanos. Depois fiz o doutoramento em História e Filologia Orientais, na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade Católica de Lovaina, em Lovaina-a-Nova. Com base na mesma tese, obtive o grau de Doutor em História Antiga na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

AE – Foi para Jerusalém por dois anos e ainda se mantém por lá?

FG – Fui para Jerusalém em Outubro de 1969. Após o primeiro ano obtive uma Bolsa da Gulbenkian e continuei os estudos. Fiquei até Janeiro de 1974. Apesar de ter sido convidado para leccionar em Jerusalém voltei para Portugal. Pensava ficar por cá, onde ensinei durante um semestre. Ao fim deste tempo cheguei à conclusão que me agradava mais lá.

AE – A cidade de Jerusalém tinha mais fascínio. Tinha oportunidade de conjugar a biblioteca com a pesquisa no terreno?

FG – Exacto. Em Setembro de 1974 voltei para Jerusalém e convidaram-me novamente para leccionar. Aceitei, mas pensava sempre num horizonte curto.

AE – Já passaram 40 anos... Muitas experiências para relatar?

FG – É um mundo tão complicado. No início é fascinante pela diversidade de mundos. Jerusalém é um aglomerado de microcosmos. No entanto, depressa me encerrei nos meus estudos visto que estava muito interessado nas descobertas no terreno. Participações em escavações arqueológicas. Sem esquecer o trabalho de biblioteca. Enveredei, muito cedo, pela interpretação dos textos.

AE – Nas investigações arqueológicas nunca descobriu um manuscrito dos tempos bíblicos?

FG – Isso nunca me aconteceu. São coisas que acontecem muito raramente. Talvez uma vez num século. Não existem muitas probabilidades de nos acontecer. Mas tive contacto directo com pessoas que descobriram alguns dos manuscritos de Qumrân. Tive como professor o Pe. Roland de Vaux, arqueólogo que escavou as ruínas de Qumrân. Estas descobertas vieram revolucionar os estudos bíblicos.

Pluralidade de religiões

AE – Natural de Trás-os-Montes, mas um viajante na descoberta de novas civilizações.

FG – As coisas foram surgindo naturalmente. Recordo-me que quando cheguei a Jerusalém – 1969 – levava uma ideia para investigar: a história da Salvação. Este tema dominava os estudos bíblicos daquele tempo. Pensava para mim: O que é isso de «Salvação»?

AE – Já descobriu o que «é isso de salvação»?

FG – (Risos). Não. Ainda ando à procura.

AE – Depois de tantos anos de investigação?

FG – Quando cheguei a Jerusalém, Pe. Roland de Vaux disse-me: “O melhor é começar por coisas muito modestas. Tu vais fazer um estudo filológico”. Escolhi dois grupos lexicais hebraicos que expressam a ideia de salvação. Andei um ano à volta desta temática. Durante esta pesquisa apercebi-me que havia uma grande concentração deste vocabulário em dois textos: 2º Livro dos Reis 18-20 e Isaías 36-39. Aliás, é o mesmo tempo com pequenas variantes.

No ano seguinte, comecei a estudar estes relatos. Há um episódio extremamente importante: a ameaça que o Rei da Assíria, Senaquerib, faz pesar sobre Jerusalém. Apercebi-me que havia neste relato uma história com vários séculos de escrita. Reinterpretações diferentes em momentos diferentes. Consegui fazer uma espécie de história da interpretação de um acontecimento histórico.

AE – Esqueceu-se do «História da Salvação»?

FG – Não esqueci, mas para a tese de doutoramento centrei-me no tema - poderia ser de relações internacionais ou política internacional -: «A expedição de Senaquerib na Palestina na literatura hebraica antiga».

AE – Este relato foi uma porta de entrada para o Profeta Isaías?

FG – Passei estes 40 anos a estudar os profetas. Nos últimos 10/15 anos voltei indirectamente à «História da Salvação», mas por outro caminho completamente diferente. Apercebi-me – já andava desconfiado – que o Antigo Testamento está longe de ser uma unidade do ponto de vista religioso. Não há só uma religião no Antigo Testamento.

AE – Está investigar esta pluralidade de religiões no Antigo Testamento (AT). Já chegou a alguma conclusão?

FG – Sim. Penso que o AT é o compromisso entre dois sistemas religiosos. Um destes sistemas – o mais fundamental – toda a religião se funda na Criação. Mais precisamente, no mito da criação. Esta religião tem a sua imagem de Deus que aparece, essencialmente, como Rei. O texto mais claro e que melhor ilustra esta concepção de Deus é a visão inaugural de Isaías (Capítulo 6). Este profeta vê uma sala real onde está o rei sentado no trono - com umas vestes que se estendem por toda a sala – e rodeado pelos seus cortesãos.

Deus é o rei que conquistou a realeza. Como é que Ele se tornou rei? Há diferentes versões, mas a mais corrente é: tornou-se rei pela vitória contra o caos. O combate cósmico primitivo. Este é um esquema comum ao mundo semita.

AE – É uma antevisão do Novo Testamento?

FG – Alguns conceitos fundamentais do Novo Testamento (NT) partem daqui. E exemplifico: o conceito de Reino de Deus; o conceito de Messianismo e o conceito de justiça e justificação lidos em S. Paulo. Não podemos esquecer que justiça é sinónimo de ordem. Para S. Paulo é a harmonia da criação na sua relação com o Deus, o Criador.

AE – Então através da leitura do cosmos as pessoas visualizam a criação.

FG – Todos têm acesso ao conhecimento de Deus através da criação. Este sistema religioso não tem lei, não conhece a lei positiva, mas a lei natural. Através da leitura do cosmos e da sociedade, as pessoas observam comportamentos com resultados felizes e infelizes, e a partir dessa observação, induzem normas de conduta.

AE – Falta o outro sistema religioso?

FG – O outro funda-se na história das relações entre um Deus e o seu povo. Entre Israel e Yahve. A primeira grande testemunha deste sistema religioso é Oseias. Qual é a imagem que Oseias dá de Deus? As metáforas que emprega têm origem familiar. Yahve é pai e o povo é o filho. Yahve é esposo, o povo é a esposa. Estas metáforas sublinham a autoridade de Deus e o culto exclusivo a Ele. Um pai pode ter muitos filhos, mas os filhos só têm um pai. Na sociedade de então, um homem podia ter muitas de esposas, mas elas só podiam ter um marido. A metáfora mais frequente é a do marido. Mais tarde, usou-se sobretudo a metáfora da aliança, oriunda do mundo das relações entre dois reis de poder desigual, o suzerano e o vassalo. Neste sistema religioso, Deus revela-se na história e a um grupo. Este sistema religioso foi mais dinâmico e conquistador. Acabou por ir absorvendo o outro sistema.

AE – Pelas suas palavras, nota-se um fascínio pelo Antigo Testamento.

FG – Quando estudo o AT, exploro os fundamentos do Novo Testamento. O estudo do AT é tão complexo e difícil que é impossível tentar estudar, seriamente, os dois. Mesmo dentro do Antigo Testamento temos especializações.

Jerusalém

AE – Na sua cidade adoptiva (Jerusalém), como é vivida a Quaresma?

FG – É preciso pensar que em Jerusalém, os cristãos são uma minoria ínfima. De um lado há o mundo judeu e no outro o mundo muçulmano. Os cristãos são uma minoria e, ainda por cima, estão divididos. Nem sequer celebram a Quaresma ao mesmo tempo porque os calendários são diferentes. Não há um fenómeno de conjunto sobre a Quaresma.

AE – Não tem um «sabor especial» viver a Quaresma e Páscoa em Jerusalém?

FG – Terá para quem vai de fora. Para quem vive lá... Passar a Páscoa lá ou noutro lado qualquer para mim é indiferente. Jerusalém é um lugar familiar, mas não posso dizer que tenha um grande apego à cidade.

AE – O simbolismo da Via-Sacra é diferente...

FG – Sim, mas sabemos que a escolha desse itinerário é artificial. No entanto, continuo a dizer que Deus não está ligado a nenhuma terra, seja ela qual for. 

A alma pode ser um computador quântico conectado ao universo?

 Em uma tentativa de inserir na ciência os conceitos de  alma e “consciência”, os cientistas Stuart Hameroff (diretor do Centro de Estudos da Consciência na Universidade do Arizona, EUA) e Sir Roger Penrose (físico matemático da Universidade de Oxford, Inglaterra) criaram a teoria quântica da consciência, segundo a qual a alma estaria contida em pequenas estruturas (microtúbulos) no interior das células cerebrais.

Eles argumentam que nossa “consciência” não seria fruto da simples interação entre neurônios, mas sim resultado de efeitos quânticos gravitacionais sobre esses microtúbulos – teoria da “redução objetiva orquestrada”. Indo mais longe: a alma seria “parte do universo” e a morte, um “retorno” a ele (conceitos similares aos do Budismo e do Hinduísmo).

A alma e a mecânica quântica

De acordo com Hameroff, experiências de quase morte estariam relacionadas com essa natureza da alma e da consciência: quando o coração para de bater e o sangue deixa de circular, os microtúbulos perdem seu estado quântico. “A informação quântica contida neles não é destruída, não pode ser; apenas se distribui e se dissipa pelo universo”.

Se o paciente é trazido da beira da morte, essa informação volta aos microtúbulos. “Se o paciente morre, é possível que a informação quântica possa existir fora do corpo, talvez de modo indefinido, como uma alma”, acrescenta.

Embora a teoria ainda seja considerada bastante controversa na comunidade científica, Hameroff acredita que os avanços no estudo da física quântica estão começando a validá-la: tem sido demonstrado que efeitos quânticos interferem em fenômenos biológicos, como a fotossíntese e a navegação de pássaros.

Vale ressaltar que Hameroff e Penrose desenvolveram sua teoria com base no método científico de experimentação e em estudos feitos por outros cientistas, ao contrário do que ocorrem em casos de “pseudociência” em que simplesmente se acrescenta a física quântica como “ingrediente legitimador” de teorias sem fundo científico. Basta aguardar para ver se outros experimentos e estudos validam as descobertas da dupla.

Via Daily Mail UK

Deus e o Big Bang

Anthony Flew

Think Summer 2003

Antony Flew pergunta o que pode estar além do big bang e questiona a suposição de que devemos escolher entre duas opções: ou Deus o criou ou ele surgiu sem motivo.

Argumentos metafísicos para a existência de Deus — argumentos como as Cinco Vias apresentadas por São Tomás de Aquino — todos pertencem a um período em que não havia uma boa razão científica para acreditar que o Universo teve um começo. Eles tinham, portanto, a intenção de demonstrar a existência e as atividades de Deus como uma causa sustentadora, em vez de iniciadora, do Universo e de tudo o que está nele, e empregaram para esse propósito as ideias científicas pré-newtonianas de Aristóteles sobre a necessidade de suporte sobrenatural para a operação da ordem da natureza. Nos últimos trinta anos, no entanto, surgiu um consenso entre os cosmólogos sobre a correção da teoria do Big Bang. Então agora nos debates organizados nos campi das universidades americanas pela Cruzada Universitária por Cristo, porta-vozes intelectualmente formidáveis ​​do teísmo como o Dr. William Lane Craig que desafiam os oponentes a escolher entre admitir que o Big Bang foi causado por Deus e sustentar que tudo "surgiu sem uma causa".

Um argumento adicional extraído das descobertas das ciências físicas para a mesma conclusão surgiu mais recentemente. Tomando o que atualmente se acredita serem as leis mais básicas da física como dadas, foi calculado que, se o valor de até mesmo uma das constantes físicas fundamentais tivesse sido no mínimo grau diferente, então nenhum planeta capaz de permitir a evolução da vida humana poderia ter evoluído.

Quaisquer que sejam os méritos do Argumento do Big Bang e deste chamado Argumento do Ajuste Fino no contexto da tentativa de construir uma teologia natural (em oposição à revelada), deve-se admitir imediatamente que é razoável para aqueles que acreditam ter boas razões de evidência para aceitar os ensinamentos de qualquer uma das três grandes religiões teístas – Judaísmo, Cristianismo e Islamismo – ver esses dois argumentos como fornecendo confirmação substancial para suas crenças religiosas antecedentes. Pois todos esses três sistemas sustentam que o Universo foi criado no início por Deus e que Deus tinha um interesse particular no comportamento humano nessa criação.

Mas os argumentos aristotélicos que Aquino adotou para inclusão em suas Cinco Vias não fornecem nenhum suporte para nenhuma dessas duas alegações. A primeira dessas deficiências foi notada por um de seus contemporâneos. Aparentemente, houve então murmúrios de que o posterior canonizado Aquino havia caído em heresia sobre esse assunto. Ele respondeu publicando o que hoje seria chamado de panfleto de aeterniate mundi, contra murmurantes (sobre a eternidade do Universo, contra os murmuradores). Nisto ele argumentou que, embora não pudesse demonstrar que o Universo deve ter tido um começo, ele próprio, é claro, acreditava que ele teve, já que este era um ensinamento essencial da fé católica.

Não temos razão para acreditar que quaisquer contemporâneos de Aquino levantaram quaisquer objeções sobre a segunda acusação. Mas é a este respeito que o Deus cuja existência pode ser considerada provada por argumentos aristotélicos difere mais drasticamente do Deus de qualquer um dos três grandes monoteísmos revelados. Pois, como acaba de ser enfatizado, todos eles veem Deus como tendo "um interesse particular no comportamento humano". No entanto, para qualquer um que estivesse pela primeira vez e sem preconceitos entretendo a hipótese de que nosso Universo é a criação de um Deus onipotente e onisciente, certamente pareceria óbvio que tudo o que ocorre ou não ocorre dentro dele deve, pela hipótese, ser precisamente e somente o que seu Criador quer, de fato faz, ocorrer ou não ocorrer. Que escopo há para criaturas em tal Universo desafiarem a vontade de seu Criador? Que espaço mesmo para um conceito de tal desafio? Para um Criador punir criaturas pelo que, pela hipótese, ele necessariamente e como tal (em última análise) as faz fazer seria a mais monstruosa, perversa, injusta e sádica das performances. Na ausência de revelação em contrário, as expectativas da razão natural devem certamente ser que tal Deus Criador seria tão desapegado e não envolvido quanto os deuses de Epicuro. De fato, alguns pensadores religiosos indianos, não prejudicados por quaisquer compromissos mosaicos atuais ou anteriores, descrevem seu Deus monoteísta como sendo, essencialmente e na natureza do caso, "além do bem e do mal".

Os escritos do próprio Aristóteles não contêm nenhum conceito de um único ser pessoal onipotente e onisciente, fazendo exigências aos seus seres humanos por nossa obediência, muito menos nos ameaçando com uma eternidade de extrema tortura por nossa (por Ele) desobediência percebida (por Ele) não perdoada. O mais próximo que o Deus de Aristóteles chega, seja na Ética a Nicômaco ou na Política, de prescrever ou proscrever qualquer tipo de conduta humana — e está muito longe de ser perto — é quando na obra anterior ele nos diz que "a vida divina, que supera todas as outras em bem-aventurança, consiste na contemplação" (X, viii, 7). Então, quando encontramos Aquino concluindo, após apresentar um argumento aristotélico para uma Primeira Causa ou um Primeiro Motor, que "Isto nós chamamos de Deus", podemos muito bem concordar, mas apenas com a ressalva. "Sim, mas talvez não exatamente no mesmo sentido da palavra "Deus".

A definição de Swinburne da palavra "Deus", uma definição que se tornou o ponto de partida acordado para a maioria das discussões filosóficas sobre a existência de Deus, não apenas no Reino Unido, mas também de forma mais geral em todo o mundo de língua inglesa, diz:" Uma pessoa sem um corpo (ou seja, um espírito), presente em todos os lugares, o criador e sustentador do universo, capaz de fazer tudo (ou seja, onipotente), conhecendo todas as coisas, perfeitamente bom, uma fonte de obrigação moral, imutável, eterno, um ser necessário, santo e digno de adoração." (Richard Swinburne, The Coherence of Theism, Oxford: Clarendon, 1977, p. 2.)

De forma alguma todas as características definidoras listadas aqui estão necessariamente conectadas, e várias também devem provocar questões de interpretação. Crucialmente, se algum Ser criou o Universo ‘no princípio’, então esse Ser não é necessariamente e pelo mesmo motivo seu sustentador; mesmo que a sustentação seja supostamente necessária. Muito menos precisa que tal Ser seja um ‘ser necessário’ ou ‘sagrado e digno de adoração’. Nem é de forma alguma óbvio o que é ser ‘uma fonte de obrigação moral’ ou ‘um ser necessário’ ou ‘digno de adoração’. Apenas uma dessas características definidoras – a de ser um Ser necessário – é explícita e inequivocamente uma característica do Deus de Aristóteles.

Há, portanto, espaço para sentidos substancialmente diferentes da palavra ‘Deus’, sentidos nos quais essa palavra é definida em termos de algumas, mas não todas as características listadas como definidoras por Swinburne. Sendo assim, é importante reconhecermos que o que pode ser uma boa razão, até mesmo suficiente, para crer na existência de um Deus definido em termos de algumas das características definidoras listadas por Swinburne pode não constituir nenhuma evidência para a existência de outro Deus definido em termos de outra característica ou outras características semelhantes.

Mesmo se e quando tivesse sido permitido que deve ter havido uma causa para o Big Bang, e que uma causa que não poderia ser descoberta pelas pesquisas dos físicos, ainda estaríamos muito longe de garantir uma justificativa adequada para concluir que essa causa deve ou mesmo poderia ter sido "Uma pessoa sem um corpo (ou seja, um espírito), presente em todos os lugares", e dotada de todas as outras características abrangidas pela definição de Swinburne.

Para começar, há uma dificuldade enorme, embora muito raramente reconhecida, com a própria concepção de "Uma pessoa sem um corpo (ou seja, um espírito)." A ideia de que o Universo foi criado e é sustentado por um Superser desse tipo originalmente se estabeleceu entre os povos que estavam convencidos de que o Universo é cheio de tais espíritos pessoais incorpóreos. E ainda hoje, em todo o mundo, muitas pessoas acreditam que seus próprios espíritos pessoais individuais poderiam concebivelmente, e talvez realmente sobreviverão, às suas próprias mortes pessoais individuais.

Certamente a familiaridade e a inteligibilidade da conversa sobre mentes e sobre almas nos autorizam a inferir que possuímos tanto um conceito de mente quanto um conceito de alma. Mas essas posses semânticas particulares não são enfaticamente o que é necessário se as doutrinas da possível existência independente e talvez da imortalidade das almas ou das mentes devem ser cognitivamente significativas.

O ponto crucial é que, em seus entendimentos cotidianos, as palavras "mentes" e "almas" não são palavras para tipos do que os filósofos chamam de substâncias. Elas não são, isto é, palavras para entidades que poderiam significativamente ser ditas como sobreviventes às mortes e dissoluções daquelas pessoas de carne e osso cujas mentes ou almas elas eram. Pois interpretar a questão se ela tem uma mente própria, ou a afirmação de que ele é um homem mesquinho, como uma questão, ou uma afirmação, sobre substâncias incorpóreas hipotéticas é como tomar a perda do temperamento do cão da Rainha Vermelha como se este estivesse de quatro com a perda do seu osso, ou como procurar o sorriso que resta depois que o próprio Gato de Cheshire desapareceu.

Se agora queremos abordar a questão da existência do Deus Mosaico — o Deus, isto é, do que o Islã conhece como "os povos do Livro" — sem preconceito, como deveríamos abordar todas essas questões disputadas, então precisamos tentar abordá-la como se nós, como adultos totalmente crescidos, estivéssemos encontrando o conceito desse Deus, também totalmente desenvolvido, pela primeira vez, e como se estivéssemos agora, também pela primeira vez, nos perguntando se esse conceito de fato tem aplicação real. Pois é, certamente, significativo que quase todos que já deram atenção sustentada a essa questão a tenham tratado como sendo sobre o conceito da fonte logicamente pressuposta de supostas autorrevelações que foram transmitidas e tornadas familiares a esses questionadores por gerações de pais e pedagogos, de padres e rabinos, de imãs e aiatolás.

Eu mesmo adquiri esse insight somente como resultado de conversas com o promissor estudante chinês que atuou como meu extremamente competente e atencioso "guardião" durante uma visita ao Instituto de Filosofia Estrangeira na Universidade de Pequim, Pequim, durante o verão de 1991. Certamente ele já estava familiarizado em 1991 com uma concepção mosaica de Deus. Mas ele a conheceu somente como hoje qualquer um em qualquer lugar pode acontecer de deparar-se com as noções de Afrodite ou Poseidon. Ele nunca teve ocasião de confrontá-la como o que William James chamou de "opção viva", como algo em que havia uma possibilidade viva de ele vir a acreditar, mais do que, para qualquer um de nossos contemporâneos em qualquer lugar, a crença na existência real de olímpicos constitui tal possibilidade viva.

(Não esquecerei facilmente sua reação chinesa à insistência cartesiana de que a ideia de Deus é impressa em cada alma humana ao nascer como, por assim dizer, a marca registrada do Criador. Ele próprio protestou que o suposto Criador de Descartes aparentemente falhou em imprimir sua marca registrada nas almas chinesas. Abstenho-me de explorar as implicações dessa falha e, em vez disso, contentar-me-ei em me referir à missão jesuíta do século XVII na China. A princípio, buscando sabiamente, na medida do possível, sinicizar sua mensagem, esses missionários tentaram identificar o Deus cristão com o Céu confucionista, Ti'en. Mas uma vez que esse expediente foi relatado a Roma, foi imediatamente proibido, pela simples, mas abundantemente suficiente razão de que o Céu possui poucas ou nenhuma das características definidoras desse Deus. Se esse Ti'en tivesse realmente sido o equivalente chinês de "Deus", o partido comunista militantemente antirreligioso da China certamente não continuaria a realizar suas celebrações partidárias e governamentais em uma vasta praça abraçando a palavra "Deus" em seu próprio nome.)

Suponha agora que somos confrontados com o desafio de Craig para escolher entre, por um lado, aceitar que o Big Bang foi produzido por Deus (conforme definido por Richard Swinburne) e, por outro lado, sustentar que o Universo simplesmente "surgiu sem uma causa". E suponha também que nos libertamos de todos os preconceitos culturais herdados e temos mentes estudiosamente abertas. Então nossa resposta imediata deveria ser perguntar por que essas duas opções são supostamente não apenas mutuamente exclusivas, como obviamente são, mas também exaustivas, como certamente não são. Pois a terceira opção mais óbvia é sugerir que o Big Bang pode ou deve ter tido causas físicas, embora aquelas que os físicos humanos, cujas pesquisas são necessariamente confinadas ao (ou talvez seja apenas o nosso) Universo, podem nunca ser capazes de descobrir.

O grande mérito dessa terceira opção é que ela é o que é mais inequivocamente sugerido por tudo o que sabemos sobre as operações no e do Universo subsequentes ao Big Bang. Pois, até onde sabemos, o tipo de objeto mais complicado e o tipo com maiores potencialidades é a nossa própria espécie: e esse tipo, como qualquer outro tipo, parece, no final, ser um produto de causas exclusivamente físicas.

Alguns versos de Uncle Tom's Cabin são mais reveladores aqui do que talvez a própria autora tenha reconhecido. Pois, diferentemente da ianque Miss Ophelia, a pobre garota do interior Topsy nunca foi doutrinada teologicamente por nenhum dos pais ou pregadores. No entanto, ela teve muitas oportunidades de aprender com a observação rural o que, na minha juventude, os pais urbanos costumavam revelar aos filhos em idade escolar como "os fatos da vida". Então é Topsy quem responde pelo senso comum imparcial e pela experiência comum:

"Você sabe quem te fez?" "Ninguém, até onde eu saiba", disse a criança com uma risada curta. A ideia pareceu diverti-la consideravelmente; pois seus olhos brilharam, e ela acrescentou "Acho que cresci. Não pense que ninguém nunca me fez." (Harriet Beecher Stowe, Uncle Tom's Cabin, Nova York: Books Inc., sem data), p. 97.)


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segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Um físico apresentou uma matemática que mostra que a viagem no tempo "sem paradoxos" é plausível

Físico vem trabalhando bastante na matemática para mostrar viabilidade do projeto

Ninguém ainda conseguiu viajar no tempo – pelo menos até onde sabemos –, mas a questão de saber se tal façanha seria ou não teoricamente possível continua a fascinar os cientistas.

É um arranhão monumental conhecido como o “paradoxo do avô”, mas há alguns anos o estudante de física Germain Tobar, da Universidade de Queensland, na Austrália, descobriu como “quadrar os números” para tornar a viagem no tempo viável sem os paradoxos.

“A dinâmica clássica diz que se você conhece o estado de um sistema em um determinado momento, isso pode nos contar toda a história do sistema”, disse Tobar.

“No entanto, a teoria da relatividade geral de Einstein prevê a existência de loops de tempo ou viagens no tempo – onde um evento pode estar tanto no passado quanto no futuro de si mesmo – teoricamente virando o estudo da dinâmica de cabeça para baixo.

O que os cálculos mostram é que o espaço-tempo pode potencialmente se adaptar para evitar paradoxos.

Para usar um exemplo atual, imagine um viajante do tempo viajando ao passado para impedir que uma doença se espalhe – se a missão fosse bem-sucedida, o viajante do tempo não teria nenhuma doença para voltar no tempo para derrotar.

O trabalho de Tobar sugeria que a doença ainda escaparia de outra maneira, por uma rota diferente ou por um método diferente, removendo o paradoxo. O que quer que o viajante do tempo fizesse, a doença não seria interrompida.

O trabalho de Tobar não é fácil para os não-matemáticos se aprofundarem, mas analisa a influência de processos determinísticos (sem qualquer aleatoriedade) em um número arbitrário de regiões no continuum espaço-tempo e demonstra como ambas as curvas fechadas semelhantes ao tempo (conforme previsto por Einstein) pode se encaixar nas regras do livre-arbítrio e da física clássica.

“A matemática confirma – e os resultados são coisa de ficção científica”, disse o físico Fabio Costa, da Universidade de Queensland, que supervisionou a pesquisa.

A pesquisa suavizou o problema com outra hipótese, que a viagem no tempo é possível, mas que os viajantes do tempo seriam restritos no que faziam, para impedi-los de criar um paradoxo. Nesse modelo, os viajantes do tempo têm a liberdade de fazer o que quiserem, mas os paradoxos não são possíveis.

Embora os números possam funcionar, dobrar o espaço e o tempo para entrar no passado permanece indescritível – as máquinas do tempo que os cientistas criaram até agora são tão conceituais que atualmente existem apenas como cálculos em uma página.

Poderíamos chegar lá um dia – Stephen Hawking certamente pensou que era possível – e se o fizermos, esta nova pesquisa sugere que seríamos livres para fazer o que quiséssemos com o mundo no passado: ele se reajustaria de acordo.

“Por mais que você tente criar um paradoxo, os eventos sempre vão se ajustar, para evitar qualquer inconsistência”, disse Costa.

“A gama de processos matemáticos que descobrimos mostra que a viagem no tempo com livre arbítrio é logicamente possível em nosso Universo sem nenhum paradoxo.”

Via Science Alert

Brasileiro descobre manuscrito mais antigo sobre infância de Jesus

O pesquisador brasileiro Gabriel Nocchi Macedo foi um dos responsáveis por descobrir e decifrar o manuscrito mais antigo sobre a infância de Jesus. 

Por décadas, um papiro estava largado em uma biblioteca da universidade de Hamburgo, na Alemanha, sem que ninguém percebesse a sua importância histórica.

Os papirologistas Lajos Berkes, da Universidade de Humboldt, em Berlin, e o brasileiro Gabriel Nocchi Macedo, da Universidade de Liège, na Bélgica, estudaram o manuscrito e identificaram ser a cópia mais antiga do “Evangelho Pseudo-Tomé”.

Gabriel Nocchi Macedo é de Porto Alegre, mas mora na Bélgica há 20 anos. Especialista em papirologia, a ciência que estuda os papiros, o brasileiro é professor de papirologia grega e latina do Departamento de Ciências da Antiguidade, da Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade de Liège.

Descoberta histórica

O pesquisador brasileiro descobriu que o manuscrito relata a infância de Jesus e data do século V, traduzindo um conteúdo que não está na Bíblia, segundo uma nota publicada na quarta-feira (12), pela universidade de Humboldt.

A tradução feita por Lajos Berkes e Gabriel Macedo é uma “descoberta significativa para o campo da pesquisa”. Antes desse papiro, cientistas acreditavam que a versão mais antiga do “Evangelho Pseudo-Tomé” era um códice do século XI.

De acordo com o brasileiro, o papiro descreve um milagre de Jesus durante a infância, que foi dar vida a pássaros de argila. O documento foi escrito em grego, confirmando as suposições de pesquisadores sobre a linguagem original do evangelho.

Berkes e Macedo usaram tecnologias recentes para decifrar o idioma do texto no papiro e, posteriormente, compararam com outros textos cristãos do mesmo período. Ao decifrar letra por letra, os pesquisadores perceberam que o documento não se tratava de um registro qualquer.

Além disso, eles acreditam que o “Evangelho Pseudo-Tomé” foi criado como um exercício de escrita de uma escola ou monastério, o que, segundo eles, explica a caligrafia “desajeitada e as linhas irregulares”.

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